Fechados para balanço

Chegamos aos números finais. É agora que a balança começa a pender, os dígitos a oscilar e os cálculos parecem ganhar importância repentina. Quantas páginas lemos? Quantos lugares visitamos? Quantas horas de música escutamos? Tentamos resumir em números nossas experiências tão singulares.

E, a partir desse balancete, surge a inquietante sensação de que nossos 365 dias não comportaram as mesmas 8.760 horas que os de tantas outras pessoas. Como se os 525.600 minutos de 2025 nos tivessem escorrido pelas mãos com uma pressa que não soubemos acompanhar. Frustração é o sentimento que acompanha o saldo negativo da produtividade.

A vida está cheia de estranhezas quantificáveis que nem sempre entram no nosso saldo final. Com os olhos imersos nos números, quase esquecemos de olhar para cima. Quando foi que você percebeu que estamos girando sobre uma imensa esfera de rochas, atravessando o espaço a 107 mil quilômetros por hora? E que estamos prestes a completar mais uma volta nesse relógio milenar?

Entre tantos planetas desabitados, somos um pequeno ponto barulhento no universo. De bilhões de bocas brotam mais de 7.200 idiomas enquanto os homens contam suas histórias, alegrias, dores e lamentos. Falam de seus planos, sonhos e anseios, e de como pretendem conquistá-los. Com esse sonho, acordam todos os dias para sua própria agitação, correndo sempre atrás do vento que não podem reter.

Afundamo-nos em compromissos infindáveis, em listas de tarefas impossíveis de realizar — nem que tivéssemos duas vidas. E seguimos travando guerras intermináveis para “chegar lá”. Acumulamos riquezas; construímos fronteiras, cercas e muros para afirmar nossas possas que, no fundo, sabemos ser habitações provisórias. E com as mesmas mãos que erguem paredes, redesenhamos incessantemente, no mapa do mundo, os limites frágeis de nossas propriedades.

Quantificamos moedas, bens, conquistas, metas, metragens de nossos domínios — como se a vida coubesse num dosador. Deixamos, no entanto, escapar os sorrisos que nos visitaram, as lágrimas que se esvaíram, as boas piadas que nos aliviaram o peito, os pequenos instantes de solitude que silenciosamente nos sustentaram. Todos únicos.

Ainda assim, embora não possamos planilhar cada experiência singular, há um modo mais profundo de medir as coisas. Lembrei-me da estrofe do velho hino: “Conta as bênçãos, conta quantas são…”

Será que realmente conseguimos contá-las? Não como quem registra gols ou soma cédulas, mas como quem reconhece, em cada acontecimento, uma dádiva indivisível e irrepetível que nos foi confiada. Cada cuidado invisível, cada gesto recebido, cada milagre cotidiano que passa despercebido na pressa dos dias.

“Uma a uma, dize-as de uma vez…” — o hino insiste. Uma convocação para despertar a consciência de que, quando nomeamos as pequenas luzes que cruzaram nossos dias, o tempo gentilmente se modifica. Descobrimos, às vezes surpresos, o quanto Deus já fez enquanto estávamos ocupados demais tentando mensurar o que nunca coube em medida alguma.

No fim, não somos chamados a exibir um relatório, e sim a reconhecer o cuidado que sustentou nossos passos. Não é sobre quanto fizemos, mas sobre quanto recebemos — e sobre como cada ruga, cada sorriso, cada instante fugaz se tornou parte da história que a mão invisível de Deus tem escrito através de nós.

Ao fecharmos mais este ciclo, que tenhamos coragem de fazer a única contabilidade que realmente importa: a de perceber, com gratidão, que apesar de tudo, não caminhamos sozinhos. E que, se contarmos com atenção as bênçãos que nos acompanharam, descobriremos, surpreendidos, que Deus fez muito mais do que pedimos ou pensamos.

E continuará fazendo na próxima volta ao redor do sol.

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Victor Freitas

Rabiscando papéis desde os nove anos vejo na escrita a forma de conversar comigo mesmo, e através dela convido o mundo para participar desse diálogo. 

Reflexivo e poético, me pego explorando o mundo através de suas metáforas. Romantizando as emoções e os desafios que enfrento todos os dias. Um retrato parecido com os roteiros vividos por cada um de vocês.

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